Vira-lata
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SER CACHORREIRO
Marcia Villas-Bôas

     Quem é cachorreiro já nasce cachorreiro. É algum gene recessivo e misterioso que aparece numa criança de uma família onde, às vezes, só lá um ou outro gosta de cachorro.
     O primeiro sintoma surge cedo, naquele dia em que a criança interrompe a paz de um almoço no lar e faz os pais engasgarem com o insólito pedido:
- Quero um cachorro!
     Pronto, começou o inferno dos pais e do mini-cachorreiro. É logo levado a uma magnífica loja de brinquedos, podendo escolher o que quiser, desde uma bicicleta até aquele carrinho cheio de luzes e sirenes.
- Quero um cachorro!
     Ganha o carrinho e mais um monte de presentes, para ver se esquece do cachorro. Mas não tem jeito. Ganha tartaruga, jabuti, periquito, canário e até um hamster, mas nada disso satisfaz a ânsia de cachorreiro que já nasce em sua alma numa intensidade que assusta toda a família.
     Se der sorte, ganha seu primeiro cachorro. Se não, vai ter mesmo que esperar crescer.
     Aí, enfim, livre das amarras familiares, começa a mergulhar fundo na criação.
     Vem a primeira fêmea, o sufoco do primeiro parto, o acompanhamento dos filhotes, o medo da parvo, da corona e, assustado, resolve:
- Não fico com nenhum!
     A ninhada cresce, começa a reconhecer o dono, a abanar o rabinho e pronto! A decisão, antes inabalável, sofre o primeiro impacto. Daí a uns dias, a resolução já é outra:
     - Não me desfaço das fêmeas; só saem os machos!
     Começou sua longa jornada de cachorreiro através deste mundo-cão. Daí para frente, passa a vida trocando jornais, fazendo vigília ao lado das cadelas que estão para parir ou dando remédio aos filhotes mais fracos.
     O cachorreiro vai se afastando do mundo dos homens e admite mesmo:
- Não gosto de gente...
     Programa de cachorreiro é visitar ninhada dos outros, pegar cachorro no aeroporto, levar às exposições ou pendurar-se no telefone para conversar com seus amigos cachorreiros... sobre cachorros.
     No começo, criar uma raça só já o satisfaz, mas logo dá aquela vontade de experimentar outra e lá vai ele pela vida afora, em meio a muitas raças e muitos cães.
     As compras de um cachorreiro também são diferentes das compras de um ser humano comum: shampoos, cremes, óleos, gaiolas, enfeites... mas tudo para cachorro. Se algum amigo viaja para o exterior e cai na asneira de perguntar: "Quer que traga alguma coisa para você?", recebe logo as mais estranhas encomendas: máquina de tosa, lâminas, escovas, pentes... e tudo para cachorro.
     Casa de cachorreiro é toda engatilhada, cheia de grades aqui e ali, protegendo portas e janelas. A decoração muitas vezes fica prejudicada com a presença de gaiolas e caixas de transporte na sala e nos quartos. Mas o cachorreiro não está nem aí e, como quem freqüenta casa de cachorreiro é cachorreiro também, ninguém liga mesmo.
     O carro do cachorreiro também não pode ser qualquer um. De preferência um utilitário com bastante espaço interno para caberem os cachorros e as tralhas todas nos dias de exposição. Banco de passageiros não é tão necessário, mas o espaço é indispensável.
     Cônjuge de cachorreiro tem que ser cachorreiro também, ou a união pode sofrer sérios abalos e quando chega aquela hora fatídica, no meio de um bate-boca, em que o outro dá o ultimátum: "Ou os cachorros ou eu!", o cachorreiro certamente vai optar pelos cachorros.
     Velhice de cachorreiro é cheia de preocupações.
- Vou morrer, e quem cuida dos meus cachorros?
     Resolve, então, não criar mais nada e reza para que todos os seus cães partam antes dele, mas o coração não agüenta e, daqui a pouco, arranja outro filhote para cuidar, estribado na promessa de alguém que garante ficar com o cachorrinho em caso de morte do cachorreiro.
     E, como ser cachorreiro é ‘padecer no Paraíso’, acredito que o bom Deus, na sua infinita misericórdia e eterna sabedoria, já tenha providenciado um céu só para os cachorreiros onde eles, junto com todos os seus cães, seus amigos cachorreiros, juízes, veterinários, etc., possam, enfim, levar uma vida tranqüila e cheia de paz.
     Mas, como muita tranqüilidade acaba ficando monótono, logo o cachorreiro fica espiando de longe o mundo dos homens, cheio de saudade, já pensando em voltar para cá e começar tudo de novo.

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DOGUINHO, uma história verídica de amor canino
Autor deconhecido

     Não sei porque lembrei-me dele hoje. Era um cão sem raça, aqui entendida como linhagem. Porque a outra, que caracteriza os destemidos, essa ele a tinha. E muita! Vira-lata, muito simpático, pequenino, de pelo curto e originalmente branco - agora encardido de tanta terra vermelha - cativava de imediato a todos que dele se aproximavam, todo charmoso, o rabinho varrendo no ar toda sua alegria. Ficou freguês da casa porque, um dia, meu filho fez-lhe um agrado na rua e, sem se fazer de rogado, DOGUINHO, assim batizado por nós, passou de repente a fazer parte de nossa vida.
     Independente, boêmio e conquistador, aparecia e desaparecia a intervalos ditados por sua vontade. Era imprevisível. Sempre bem-humorado, era recebido com carinho e alegria. Vez por outra ficava conosco por dois ou três dias, para alegria geral, inclusive de um belo pastor alemão capa preta que tínhamos e com o qual DOGUINHO se dava maravilhosamente bem.
     Perto de nossa casa morava uma família francesa, que tinha uma cadela toda faceira, e que andava sempre bem limpinha e perfumada. Uma autêntica "dama" canina, paparicada pelos donos e, de quebra, v i r g e m.!!!!
     Um belo dia, em seu primeiro cio, a cadelinha amanheceu taciturna, encolhida num canto, olhar triste e distante. Chamaram o veterinário mais badalado da cidade, que só atendia a domicilio e só aceitava chamados para tratar de cães "nobres", como a cadelinha da família francesa, ela própria também de pedigree francês.
     Pelo que soubemos, de nada adiantou a medicação prescrita pelo veterinário famoso. A tristeza da pobrezinha era profunda e seus donos não escondiam sua preocupação.
     DOGUINHO, por seu turno, também estava tristonho. Deu pra notar logo que ele surgiu numa de suas inesperadas aparições. Então, de repente, o segredo dessa tristeza que martirizava os dois foi revelado: a cadelinha francesa, com toda sua nobreza, estava morrendo de amores pelo DOGUINHO. Imagine só, uma "grande damme" apaixonada por um "clochard". Só em livros, na vida real isso não existe! A paixão dos dois não teve conseqüências imediatas. Passado o "cio" tudo voltou ao normal. Pelo menos era o que todos pensavam. "Foi só um susto", disse o dono francês da cadelinha, com seu sotaque carregado."Agora está tudo bem", completou.
     DOGUINHO havia sumido de novo. Dessa vez por quase três semanas.
     Certa noite, ao chegar em casa, deparei-me com ele deitado, todo encolhido, na soleira da porta. Quando toquei nele, de leve, tentando acariciá-lo, em vez de manifestar a alegria de sempre, DOGUINHO soltou um gemido de dor tão profundo que me gelou a alma.
     Estava doente, e muito. Todo arrebentado. Talvez vítima de um atropelamento, comentei com meu filho. Com muito cuidado, conseguimos colocá-lo no carro e saímos rápido em busca de socorro.
     O veterinário que nos atendeu foi taxativo:" está muito mal, hemorragia interna!". Mesmo assim, medicou-o, aplicou injeções, prescreveu outros medicamentos e recomendou mil cuidados.
     De volta à casa, passamos a noite toda cuidando dele, que resistia bravamente. Ao amanhecer já não gemia tanto e parecia sofrer menos. Foi quando nos dirigiu aquele olhar... Santo Deus, quanta amargura! Parecia que sofria mais por estar confinado num quarto do que pelas conseqüências de seu atropelamento.
     Meu filho e eu trocamos um olhar de cumplicidade e eu lhe disse: "Vamos deixá-lo ir. Acho que é isso que ele quer. Se tiver que morrer, que seja na rua, onde sempre viveu, independente e livre".
     Assim procedemos. Logo que viu a porta aberta, DOGUINHO levantou-se com dificuldade e foi embora, lentamente, mas com os olhos brilhando de contentamento. Ficamos com sentimentos mistos, mas com a certeza de que havíamos feito a coisa certa.
     Não o vimos por mais de um mês. Achamos que tinha morrido. Nossa tristeza foi grande e a repartimos com os donos da cadelinha francesa que também manifestaram sentir pena pelo triste destino do cãozinho, tão querido de todos.
     Um belo dia - Que surpresa! DOGUINHO reapareceu, totalmente curado, charmoso como sempre. Alegria geral! Nessa ocasião os franceses estavam se preparando para regressar ao seu país de origem. E ao saberem do reaparecimento do DOGUINHO resolveram adotá-lo para curar de vez a tristeza da "grande damme" e decidiram levá-lo, — imaginem — para Paris...
     Não sei se ele aceitou a nova vida de 'MONSIEUR DOGUIN', se passou a viver como nobre ou se a "grande damme" acabou se transformando em um "clochard" como seu amado sempre fora. Jamais saberei.
     Mas tenho certeza de que DOGUINHO voltou à boêmia, à vida feliz, livre e independente que sempre vivera.
     Só que, agora, não mais nos cerrados de terra vermelha e poeirenta de Brasília mas nas alamedas verdejantes do Bois de Boulogne.

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PEDIDO DE UM CÃO
Autor desconhecido
fonte: Canil Absoluto - Terrier Brasileiro

Não sei por que me desprezas,
E procuras me maltratar,
E quando tenta gostar de mim,
Acabas por me detestar.

Não o culpo totalmente,
Mas também não te dou razão,
Posso não ser homem,
Mas me orgulho de ser Cão.

Sei que tu foste feito,
A imagem de teu Senhor,
Mas não esqueças que Ele,
Também foi meu criador.

Aqui na terra fui posto,
Para ser teu melhor amigo,
Por quê agora te tornas,
Meu maior inimigo?

Não peço que tu me ames,
Mais que ao teu semelhante,
Só peço que não me desprezes,
De modo triste e humilhante.

Tu tens o Dom da Fala,
Eu o Dom de Latir,
E com apurados ouvidos,
O mal, posso pressentir.

Posso ser teu companheiro,
Posso ser um caçador,
Podes me usar pra tudo,
Até guarda e protetor.

Quando exausto, tu chegas,
Todos podem te abandonar,
Mas eu, nunca esqueço,
De minha cauda abanar.

Todos os teus amigos,
Te amam e te querem bem,
Mas só, enquanto os amares,
E lhes fizeres o bem...

Porém eu sou diferente,
Só te recebo, com alegria,
Mesmo quando me tratas,
Com frieza e grosseria.

Quando ao deitar, pedes a Deus,
Que protejas o teu Lar,
E que não permitas,
Que ladrão, o venha roubar.

Porém esqueces que Deus,
Pode até usar um Cão,
Como usou, Jesus, certa vez
A jumenta de Balão...

Por isso ,creias que Deus,
Pode também me usar,
Para enfrentar o malfeitor,
E com minha vida, defender teu Lar.

Não tentei ser um poeta,
Pois não passo de um Cão,
Só desejo que me trates,
Com carinho e consideração...


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