Esta historia é verídica. Uma das muitas que presenciei e continuo presenciando. O Samba era um cão especial. Não precisava de ninguém, se virava muito bem. Era um setter com alma de vira-lata.
O Samba já tinha idade. Morreu pouco tempo depois de insuficiencia renal. Mas deixou saudade e a sua história eu vou sempre lembrar.
UMA VETERINÁRIA EM APUROS
Sílvia Parisi
Mike era um cãozinho mimado. Decididamente mimado. Ele era um poodle toy já velhinho e sua dona andava com ele de rostinho colado.
Um dia a dona do Mike resolveu dar um banho nele em meu pet shop. Ela adentrou o salão de tosa , encostou o pobre do funcionário na parede e apontou o dedo para o nariz do coitado.
- Cuida bem do meu Mike, senão vai ter quando eu voltar!!!
Segundo ela, o Mike tinha um problema na patinha porém, havia feito um tratamento e não estava mancando mais. Além da " cordial recomendação" feita ao funcionário, ela me pediu que supervisionasse pessoalmente o banho do Mike. E assim foi feito. Após o banho, costumavamos deixar os cães amarrados na sala de espera. E lá estava o Mike na minha frente. Limpinho, perfumado, quietinho esperando a sua dona voltar.
Daí a pouco ouço a voz da proprietária que, subindo as escadas da clínica, bradava:
- MIIIIIke, a mamãe chegou!!!!
Imediatamente, o lindo cãozinho recolheu a pata como se estivesse machucado e se encurucou no canto com cara de coitado. Eu não acreditava no que meu olhos estavam vendo. Depois de tanta recomendação... O que ela ia pensar...
- Mike, não faça isso comigo. Abaixa essa pata, dizia eu baixinho.
Eu olhava a dona do Mike subindo as escada e via nela a minha executora. Só faltava o capuz...
O que é que eu ia falar...
Antes que ela pronunciasse qualquer palavra eu fui logo me explicando:
- Eu sei que a senhora não vai me acreditar, mas assim que o Mike ouviu a sua voz encolheu a patinha. Eu garanto que tratamos dele com cuidado e blá, blá , blá...
Me preparei para ouvir a sentença de morte.
Ela calmamente virou-se para mim e disse:
- Não é uma gracinha... ele faz assim mesmo, só para chamar a minha atenção...
Me senti uma idiota... Não sabia quem eu matava, a dona ou o Mike. Fiquei muda...e o Mike lá, me olhando com aquela cara de satisfação já de volta ao posto que lhe era de direito, o colinho da mamãe.
O Mike foi embora e tenho a certeza que em seu pensamentos caninos deve ter rido à beça de mim.
Caso verídico! Esses cães...
O CASO DA TATA
Tata, pela mãos de Marly Spacachieri
Fui escolhida para latir aqui, para vocês, a minha história.
Sou a mais autêntica vira-lata da região. Nascida em 1990 (oficialmente sei lá, mas minha mãe humana me adotou em 09/05) em Taboão da Serra ( S.Paulo). Vim ao mundo sem nada, sequer um paninho quente. Porém, a mãe natureza me dotou de uma inteligência acima do normal: sou atriz (e das boas). Logo de cara vi que para conseguir alguma coisa a mais que comida era preciso agir e rápido pois a rua é violenta e cheia de perigos para nós, mocinhas desprotegidas.
Notei que num determinado conjunto habitacional havia um casal estranho, que fazia coisas estranhas (do tipo afagar cães sujos, pulguentos e sarnentos) e que tomavam um tal ônibus fretado todos os dias. Pelas roupas que usavam percebi que teria futuro com eles. A mulher me olhava com tristeza e muitas vezes (confesso agora) me coloquei em perigo, atravessando a avenida, para que ela se decidisse logo.
Demorou para caramba! E todos os dias eu fazia a mesma carinha de fome e tristreza e um dia funcionou. Chovia e eu aproveitei para ficar na rua, quase atropelada pelos ônibus, toda molhada e tremendo (a sarna ajudava bastante). Ela subiu em seu ônibus e ficou me olhando.
No dia seguinte, 09 de maio de 1990, eu estava realmente mal, arrastando a pata esquerda dianteira, tremendo muito e com uma espécie de tosse. E o pior é que não estava fingindo não. Ela chegou, me olhou e subiu chorando no ônibus. Eu já tinha desistido. Ninguém ia me querer e se ela não se decidia....
Quando fui para a feira, buscar meu pastel semanal, o mundo sumiu. De repente, um pano caiu sobre todo o meu corpo e algo me levantou. Entrei numa sacola de feira e fui carregada como um pacote. Quando entrei num taxi (que chique, né?) percebi que o negócio era sério e vi que não era a moça e sim o rapaz que me levava. Cheguei no Hosp.Veter.da USP. Os doutores me apertaram, examinaram, abriram minha boca e outros exames terríveis e concluíram que além da sarna e dos vermes eu estava com princípio de pneumonia. O rapaz me afagou, pouco se importando com meu mau cheiro. Quando examinaram minha pata (tiram até fotos) a cara deles me preocupou. Fui medicada e colocada de volta na sacola. Muito triste, o rapaz foi ao telefone e eu pude ouvir ele dizer para a moça que eu tinha grandes chances de sobreviver, mas a minha pata... Bom, ele chorava e eu não entendia nada. De repente ele desligou o telefone e sorrindo me ofereceu um fantástico cachorro quente. Dispensei o pão e fui direto para a salsicha (detesto maioneses e mostarda).
O taxi nos trouxe de volta e foi aí que senti medo mesmo. Era o desconhecido! Fui para um apartamento (eu queria casa com quintal, flores e portão!) no meio de uma reforma, com pedreiros e material para todos os lados. Assim fiquei durante muito tempo, sendo tratada pelo casal e o pedreiro que tentou ajudar no que pôde. Eu era sarna pura, ossos colados na pele, febre e suores. Além disso, a pata se arrastava. O tempo passou e a reforma acabou.
Engordei, fiquei esperta e todos os dias ficava sozinha em casa, cuidando daquele meu lar estranho e pequeno, ouvindo música clássica da FM Cultura (adoro Bach), comendo e dormindo bastante.
Um dia, minha mãe (me adotou mesmo, uau!) me encontrou comendo a minha pata. Formigava e me incomodava muito. O tratamento não estava dando o resultado esperado. Imediatamente voltei a USP e a doutora disse que tinha necessidade de amputação alta. O meu nervo estava morto (eu levei um ponta-pé na rua, poucos dias antes de ser adotada). Foi uma choradeira geral. Chorava médica, meu pai, os assistentes, menos eu. Com alívio me vi sem esse peso. Levei 42 pontos (perfeitos - parabéns USP e todo esse pessoal fantástico que lá trabalha).
Voltei para casa nos braços do meu pai e minha mãe mandou um chefe por um dia (ela era Gerente Financeira) para o inferno e ficou me tutelando. Lutei, levantei, me equilibrei e finalmente fiquei feliz de todo.
Hoje, passados 8 anos, sou muito feliz. Forte (peso 20 quilos) dou "baile" em todos os cães, galinhas e borboletas que aparecem por aqui. Continuo morando no mesmo apartamento, com mais patas como companhia. Faço festa
para todo mundo e num dias destes, quando estava na clínica veterinária, fiz tanta festa que o Dr.Alex (meu médico - lindo ele!) veio dizendo:
- "Tata, tinha certeza que era você!"
Uma mulher perguntou se eu era assim barulhenta e ele replicou
- "Ela é muito feliz e faz questão de mostrar isso"
.. Sou mesmo! Adoro meus pais e meus irmãos. Minha avó materna (ela odeia esse título) diz que ganhei na loteria. É verdade. Uma coisa só me deixa triste: minha mãe não consegue não sentir ódio de quem me chutou. Eu já disse a ela que perdoei e valeu a pena ter passado por tudo isso, mas fazer o quê.... vá se entender a parte humana da mamãe!
Jamais digam "tadinha" pois se assim o fizerem, viro de barriga para cima, abanando o rabo, chorando, para ganhar mais e mais carinho. Eu sou uma Tatinha; nunca uma "tadinha". Sou exemplo de força de vontade e exemplo que a natureza dá a quem quiser ver. Orgulho dos meus pais, do prédio onde moro (todos me acariciam) e início de conversa em qualquer grupo onde meus pais estão. A pura e autêntica vira-lata. com muito orgulho, sim senhor.
Gostaram da minha história? Dos tempos antigos, só sinto falta daquele pastel de feira.... Ah. sabe por quê foi o papai que me salvou naquele dia? É que no dia seguinte era aniversário da mamãe e ele me deu de presente para ela.
FREUD EXPLICA
Silvia Parisi
Existem muitos cãezinhos que o dono torce para que ele não fique doente... e a veterinária dele muito mais...
O Freud era um poddlezinho muito bonito, bem cuidado e amável. De repente, sua dona resolve ter um bebê...
Isso foi atrevimento demais para ele. O Freud resolveu se transformar numa fera e dominar a todos na casa. Afinal, a afronta havia sido demais...tirar-lhe todas as atenções??? Isso não se faz nem com um cachorro, pensava ele.
E o Freud foi piorando cada vez mais, sua agressividade, fruto do ciúme que tinha do bebê , já não respeitava mais ninguém na casa. A vacina anual ficava cada vez mais difícil de se aplicar. À domicílio ainda? No território dele?...
Um dia fui chamada para fazer um limpeza de tártaro naquela temida boquinha. Apliquei um tranquilizante e o Freud dormiu que só ele... ou pelo menos, parecia dormir... Vez ou outra ele fechava a boca rápidamente, mas eu ainda queria crer que era só um reflexo.
Bem, terminado o serviço, eu quis colocar o Freud na sua caminha e acomodá-lo. Não sei porque resolvi fazer isso, uma vez que estava grávida de 7 meses e quase não podia me abaixar. Coloquei o Freud em sua cama e para a minha surpresa, ele deu um pulo e saiu correndo atrás de mim para me atacar, como se não tivesse tomado um pré-anestésico...
Tive que subir numa cadeira para ele não arrancar um pedaço da minha perna. Imaginem a cena, a veterinária em cima de uma cadeira fugindo de um poodle toy... Bem, meu estado não permitia que eu fizesase outra coisa, mas me senti ridícula naquela situação. Já enfrentei um canil de cães de guarda para vacinar grávida de 8 meses, mas igual aquele poodlezinho...
Bem, torço para o Freud continuar saudável e limpar seu dentes agora, só com anestesia geral e botas de cano longo!!!!
A EPOPÉIA DE JOANINHA E ZECA
Marli Spacachieri
Esta é a epopéia de uma poodle pequenina, chamada Joaninha, com o também poodle atlético de nome Zeca.
Pois bem, Joaninha, toda dengosa, encaracolada, de pelo cor de sorvete de creme não diet, perfumada e mimada, apaixonou-se pelo Zeca, o poodle mais matreiro do local, todo garboso com seu pelo preto, brilhante e sua coleira prateada.
A paixão foi correspondida e, numa escapada digna de um filme, Joaninha e Zeca encontraram-se no jardim ao lado do estacionamento. Foram encontrados pelos respectivos donos, contudo, estavam já na fase do cigarro, bem relaxados.
Tudo bem, tudo bem! Ela não é uma criança; mocinha sim! E grávida!
Algum tempo depois, cinco lindo filhotes. Três cor de sorvete de creme não diet e dois na cor marrom com pequenas mesclinhas mais claras. Surpresa para a dona da poodle, que foi devidamente acalmada pelo veterinário numa longa explicação sobre cor de pelagem canina.
O tempo passou e os filhotes foram doados; contudo, o dono do Zeca quis uma menininha cor de sorvete de creme não diet mas teve a infeliz idéia de colar seus lacinhos com super cola.
Loucura e revolta no local! A dona da Joaninha, irada, nervosa e com todo o apoio da população local, pos a boca no mundo. Envergonhado, o dono do Zeca concordou em devolver aquela bolotinha peluda de sorvete de creme, que foi devidamente encaminhada para um lar menos estranho.
Contudo, a dona da Joaninha, não conformada, reuniu o pessoal todo e contou que havia descoberto o porquê os filhotes nasceram com aquela cor: o dono do Zeca tinge seu pêlo com tintura (Koleston) preta. O meninão, na realidade, é amarronzado, meio mescladinho.
Depois disso, com a pressão de toda a criançada local, gritando feito louca: "tingido, tingido", o Zeca ficou ao natural.