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O CASO DA MANDIOQUINHA
Marly Spacachieri
Voltando ontem das compras, como todo mundo nós também temos uma fruteira onde colocamos algumas frutas e legumes (na fruteira????).
Ao arrumarmos as dita cujas e dita cujos, Chiquinha, nossa mais nova adoção SRD, uma mistura de pastor alemão (cara) com chihuahua (corpo), ficou toda animada ao ganhar uma mandioquinha gordinha.
Magno olhou com dó para o legume já que era uma a menos a ser feita numa versão amineirada de batata-chips. Eu havia prometido fazer!!!!
A tarde inteira foi aquela festa: mandioquinha rodando para baixo e para cima, com a Chiquinha correndo da Tila e vice-versa, sob o olhar atento da Tuca que devagarinho, "raposamente", pegava aqui e ali.
Trabalhamos a tarde toda e ao cair da noite.... Magno, o grande responsável pelo jantar dirigiu-se à cozinha. E eu lá, meio concentrada e meio diluída no meu trabalho, senti meus cabelos arrepiarem-se todos (feito moicano) com um grito de:
- NNNNÃÃÃÃOOOOO!!!!!! - BENHÊÊÊÊÊ?????
Sai correndo e vi meu marido, olhar triste para a fruteira que tem legumes também, apontando para a ausência completa das mandioquinhas. Cadê?????
- Quem foi, gritou.
Só se viu focinhos correndo, orelhas abaixadas e rabos entre as pernas. Mas um desses corpos peludos destacou-se pelo formato um tanto quanto "mandiocal": Chiquinha. Sim, senhoras e senhores. Ela comeu 1 quilo do legume.
Seqüência disso tudo: como tudo que sobe, desce; tudo que entra, sai; não é assim? Pois bem, de manhã encontramos todo o quilo de mandioquinha, devidamente processado com mais algumas rações deglutidas, por todos os cantos. O aspecto era terrível! Magno desistiu das mandioquinhas chips e eu do purê de mandioquinhas. Tuca, Tila e Teco também processaram suas mandioquinhas, só que em menor quantidade.
Moral da história: use sua fruteira somente para por frutas, de preferência, as melancias e abacaxis.
A TUCA, A BELA
Tuca, pelas mãos de Marly Spacachieri
Bom, me convenceram (após acerto de pagamentos em biscoitos - sou tarada por biscoitos... aceito doações.... ) a contar a minha história.
Não é tão triste quanto a da Tata (que cá entre nós, parece uma berinjela de tão gorda!) mas fica próxima sim. Não perdi nenhuma pata mas quase morri também. Corria o frio ano de 1992 quando fui malvadamente abandonada na BR-116 (Régis Bittencourt) e se não conto detalhes disso é porque tenho medo que minha mãe humana leia e se apavore ainda mais, frente aos perigos que passei. Só sei que acabei entrando no mesmo conjunto habitacional da Tata e na entrada, um grupo de cães me disse:
- Olha, cê tem chance no apto daquele casal meio esquisito, mas tem que caprichar no visual.
Não precisei de muito pois estava extremamente magra, totalmente lotada de bernes e respirando com dificuldade.
De cara encontrei a Tata e seu dono. Gostei da dupla! Sentei no meio do lixo e lá fiquei com a cara mais triste do mundo e respirando ofegantemente, tendo o cuidado de que o sol batesse em meus pêlos e mostrasse a sua cor cinza rato.
Isso durou mais ou menos uma semana. Eu sempre aparecia no exato momento em que a dupla saía para passear e notei que o meu futuro pai me olhava bastante. E é claro. Sou cinza mesclada de branco e marrom. Autêntica vira-lata!
Numa tarde fiquei embaixo da janela da sala onde a Tata morava. Chovia. Era pouco mais chovia. E a minha futura mãe me viu. Durante a noite ela abriu e fechou aquela janela por diversas vezes. Na manhã seguinte fui capturada por uma toalha jogada sobre meu pobre corpinho.
Daí para a frente foi uma luta para adaptação dentro do apto. Eu era uma cachorra rural e me vi presa. Porém, a gentileza que a Tata me ofereceu, cedendo sua vasilha de comida, sua cama e sua água, bem como todos os seus brinquedos, amoleceram este coração nada urbano.
Tomei (argh!!!!) banho e meu pai arrancou todos os bernes (era nojento!). Fui ao médico e tomei as vacinas. E um dia, ao me olhar no espelho, percebi o quão linda sou. Outro dia o Dr. Alex, nosso veterinário, disse que eu era "uma gata"; se não fosse um elogio humano ia sobrar mordidas.
Hoje ajudo no que posso, pondo ordem na bagunça, espantando vendedores, comendo correspondências, indo no banco de trás do carro para garantir a segurança da mamãe (mesmo que aquele maldito carro velho quebre comigo dentro e fiquemos, eu e mamãe, a rir do papai tentando consertá-lo.
Pobre! Só entende de computador e mesmo assim....) e dormindo atrás da porta da entrada desse apto (que é canil, escritório, casa, etc.), cuidando de quando a vizinha entra e sai. Dedo mesmo! Apavoro! Minha insuficiência respiratória foi curada mas sempre tomam muito cuidado comigo, pois não posso ficar molhada (e isso me ajuda a evitar argh argh os banhos). Quando chove, não desço! E pronto! Imagine só, molhar meus lindos pêlos. Além do mais. é perigoso. Ainda outro dia pisei numa latinha e machuquei um dedo.
Foi a conta! Infeccionou, tive que tomar injeção e andei de sapatinho por um mês. Ouvi cada piadinha! Meu pai saiu em protesto por todo o prédio, mostrando meu sapatinho e alardeando quanto a sujeira.
Mas, fiquei boa. Sou feliz nesta casa, rodeada do carinho dos meus pais e irmãos, porém ainda guardo muitos medos: chuva, trovões, carros na rua e bombas. Contudo, todas as vezes, a minha mãe pega na minha pata e a segura, e eu sossego.
A Tata é a chefe, isso é verdade, porém quem manda sou eu (pelo menos nas marmitas). Éramos uma super-dupla (inspiramos o logotipo da empresa do papai e mamãe) até aparecer o Teco, um menininho extremamente mal humorado, mas essa história ele que conte. Cansei e não posso me exceder sob o risco de perder
o brilho do pêlo.
A HISTÓRIA DO TECO
Teco, pelas mãos de Marly Spacachieri
Sou um rapaz canino nascido há aproximadamente 4 anos aqui perto do conjunto habitacional da Tata e Tuca.
Nasci e fui adotado por uma casa, cujos donos não sabiam e nem queriam cuidar de mim. Abriam a porta e eu saía correndo atrás da vida de cachorro urbano.
Sei lá quantas vezes atravessei ruas, a estrada, escapando (por milagre) de um atropelamento fatal. Mas meu interesse sempre foi este conjunto de prédios. Aqui tem cadelas de montão e eu faço um tipo faceiro, com uma orelha quebrada e outra em pé, estilo Fox Paulistinha com Bassêt (apesar de ser vira lata puro sangue), com uma perninha dianteira torta e branco com manchas pretas. Meu rabo sempre em pé, parece antena.
As vezes eu voltava para casa; algumas poucas vieram me buscar mas um dia, desistiram. E eu cresci (não muito). Aos poucos fui me tornando o senhor das cadelas e dos sacos de lixo, ao mesmo tempo em que ganhava a simpatia de algumas pessoas (precisava garantir meu sustento) porém tive o cuidado de esconder isso o tempo todo.
Um dia, eu já adulto e assumido macho do pedaço (mas sempre se olho na Tata e na Tuca) encontrei uma cadelinha muito magrinha e sem um olho. Foi paixão ao primeiro faro. Ela estava grávida e teve lindos filhotes (que foram todos doados já que eram mestiços). Mas ela, a mãe, foi envenenada. Começou a passar mal, quase morreu. Foi salva pela rapidez com que o pai da Tata e Tuca (aquela duplinha maluca) agiu.
Depois disso, todo mundo saiu na defesa dela. E eu pude me aproximar.
Novo cio e lá estava eu. Pois bem, apareceu cão de todos os lugares possíveis a fim de ganhar a minha namorada. E eu enfrentei um a um. Pouco me importava se era grande ou pequeno. As cicatrizes que tenho contam isso melhor (coisa de macho!!!). Contudo, na noite de 26/02/1996 comprei uma briga maior que um buldogue e o vizinho do prédio onde eu latia saiu e me bateu com pau; pegou no meu focinho. No dia seguinte, os garotos contaram para a mãe e o pai da Tata e Tuca (linda duplinha, essa aí) que me procuraram mas eu havia sumido. Só se sabia que com a violência usada pelo cara (é um garçom de rodízio gaúcho e por isso, todas as vezes que vejo um boi ou uma vaca, arrepio todinho...) quebrou o pau.
A minha namorada foi capturada e levada para a estrada. A mãe da Tata e Tuca (as gracinhas) comprou uma briga com quem fez isso... prometeu processos... o diabo; mas ela, a linda cadelinha, minha namorada, voltou. O pai da Tata e Tuca (não se aproximem que eu mordo!) não pensou duas vezes e capturou-a, entregando-a para uma entidade protetora de animais onde os filhotes nasceram e ela ficou protegida.
Quando ele fez isso, eu apareci para registrar meu protesto, mas a dor era tanta e meu focinho era uma ferida só. Meu dente da frente (a presa) atravessou a bochecha e prendeu-a, infeccionando. Deixei-me prender pela mãe da Tata e Tuca (elas são demais!!!) e a Tata (como sempre, bondosa) emprestou sua coleira. A entidade não me aceitou porque o meu caso era grave.
Voltei. E pasmem, senhores: eu já tinha um pai!!!! Ele, o pai da Tata e Tuca (ai, ai) desceu do carro (uma lacraia velha - a Tuca tem razão!!!) e olhou para a janela. A mãe da duplinha estava lá, olhou-nos como a Julieta olhou para o Romeu na cena do balcão, sorriu lindamente e abriu a porta. Entramos. Eu tinha uma mãe!!!! Nem pude agradecer devido a dor. Fomos ao veterinário que finalmente conseguiu tirar meu dente de lá, passou uma pomada e eu dormi quase 12 horas. Durante muitos dias tive que comer uma papinha já que me era impossível morder. Mas o melhor era que eu tinha duas menininhas, as mais lindas e invictas do pedaço...
Contudo, meu estado era lamentável: todo machucado, pulguento, mancando da pata traseira (levantada), com o pelo todo sujo de óleo dos carros (onde eu dormia, oras!) E, o pior, com um tumor no pênis, lembrando uma couve-flor, além da infecção urinária. Fiz todos os tratamentos, quimioterapia, tomei vacinas, banhos e outras coisas de cachorrinho via..nho. Quiseram me dar almofadinhas cheias de cachorrinhos desenhados, vasilhas com rações em forma de ossinhos e outros "inhos" que comprometiam, em muito, a minha famigerada e mundialmente conhecida força de macho reprodutor. Banho com perfume! Pode?
Pode sim. Aos poucos fui cedendo aqui e ali pois era preciso garantir a minha existência, apesar de sempre planejar fugir. Eu precisava fugir. Era livre por natureza. Porém, as garotas da casa entraram no cio (mamãe em stress....) Foi um sufoco mas conseguiram. não cruzamos. Ao mesmo tempo, carregaram-me por todos os lugares, clientes, supermercados, visitas, etc. e tal. E numa dessas vezes, olhando pela janela do carro, devidamente instalado sobre o seu motor, protegido, vi a rua onde nasci, a minha casa.
Ninguém veio me procurar! E a minha namorada também havia ido embora. Os outros cães diziam "via..nho" quando me viam de coleira; outros me chamavam de índio por causa da minha orelha em pé, mas as crianças que assistiram ao meu espancamento, me apontavam e diziam:
- Puxa, como ele está bonito.
Fui gostando disso.
Tanta gente falou que a Tuca ficou meia ressabiada e me proibiu de usar sua lavanda. E daí? Eu tenho a minha: de macho!
Um dia, a mamãe e o pai nos levaram viajar e eu protegi a minha duplinha, já obediente: a Tata e a Tuca. Nesse dia choveu muito e o papai, notando o meu medo, pegou-me no seu colo, acariciou-me até meus olhos fecharem de sono. Me entreguei. Ao diabo com a fama, o que eu quero mesmo é a minha família, a almofada quente, meu prato de ração todos os dias, não sentir mais dor na patinha (que é torta porque eu fui mal alimentado quando filhote), o carinho e o conhecimento do Dr. Alex, o sol na minha barriga, os afagos das mãos do papai e da mamãe e o carinho gostoso das minhas meninas (um dia a gente cruza...).
Estou aprendendo a ser filhote, indo para cima da cama e me esfregando gostoso; subindo no colo das pessoas que gosto e expulsando as que não gosto.
Porém, uma coisa aconteceu, de forma misteriosa para meus pais e médico: eu, apesar de todo o esforço desempenhado por eles, não engordava o esperado. Isso foi um mistério que somente a Tila pôde esclarecer quase um ano depois. Quem é a Tila? É a mais nova membro das 15 Patas. Mas ela é peralta, brinca o dia inteiro e é linda (prometeu filhotes, assim que a mamãe bobear....).
Essa é a minha história.
O MILAGRE DE TILA
Tila, pelas mãos de Marly Spacachieri
Olá pessoal. Meu nome é Tila e sou uma vira-lata totalmente preta, travessa e muito mimada. A minha vinda para o território das 15 Patas se deu de forma inusitada. Mamãe sonhou que estava num lixão e encontrou um cachorro com as patas quebradas (eram de vidro). No dia seguinte, ao acordar e contar ao papai, este - mineiro precavido - levou-a para a ginástica, evitando a lixeira do prédio.
Porém, ao olhar para o outro lado da rua, viu... o quê? Eu? Não! A lixeira do outro condomínio.
Entretanto, mamãe me viu e se surpreendeu com a semelhança do seu sonho e a cadelinha muito magra (6 quilos e sou tamanho médio). Imediatamente, para espanto do papai, disse:
- vamos levar, vamos levar, vamos levar; e a gente acha um dono depois.
E eles realmente costumam agir assim. Porém, muitas surpresas estavam por vir. A primeira refere-se ao comportamento da Tata, Tuca e Teco. Eles, super mimados e curiosos, sequer se importaram com a minha presença (totalmente solta pelo minúsculo apartamento). Ninguém se interessou por mim.
Eu tinha um pouquinho de sarna. Aparentemente era somente isso. Alimentada, socorrida e cansada, dormi feito pedra.
Dias depois tive vômitos e desinteria média. Levaram-me a clínica veterinária que na época tratava da Tata, Tuca e Teco. Fui examinada e receitaram vermífugo. Nada! Piorei! Voltei e me deram soro e remédio para desinteria. Nada! Voltei e uma outra médica me atendeu e desconfiou de algo (que não quis falar), por isso pediu exames de urina, fezes e sangue.
Quando mamãe foi levar, a médica tinha sido demitida. Para encurtar isso, foram mais de 50 dias de sofrimento, onde eu só definhava mais e mais. A médica sequer se interessava em saber a real causa, alegando que os exames haviam resultado em normais.
Um dia mamãe notou que minha urina tinha uma espécie de catarro. Nesse momento a situação somente evoluiu para o pior. Vômitos e mais vômitos; fezes terríveis e fraqueza. No teste de hidratação, minha pele não voltava.
Numa tentativa desesperada, voltamos a veterinária (que sempre cobrou tudo e mais um pouco) que com cara de poucos amigos, ministrou mais soro, esquecendo-se de nós. Voltamos para a casa. Mamãe nervosa pois seu trabalho estava parado e os clientes cobrando.... Papai sem saber o que pensar, pois afinal aquela médica tratava dos meus irmãos há tantos anos... Ela não se dispôs a nos atender no feriado (dia seguinte) e por isso, quando realmente eu piorei ao ponto de não conseguir levantar, mamãe e papai me colocaram no carro e seguiram para uma clínica no Morumbi. Para quem não sabe, o Morumbi é o bairro onde mora a classe mais rica deste país e tudo lá e extremamente caro.
Mas eu gania tanto.... Fomos e lá encontramos o Dr. Paulo Salzo (e desculpem a propaganda, mas se a Regina Duarte pode... eu sou mais gostosa...) que imediatamente me pegou e correndo até a sala de emergência começou o atendimento. Sua primeira atitude foi providenciar os mesmos exames que a tal veterinária disse ter feito.
Coincidência ou não, o laboratório é o mesmo e como o caso era de emergência, eles concordaram em verificar os resultados. Surpresa!!!! Não havia exame algum em nome da tal médica, clínica, eu ou meu dono. Porém eu já não agüentava mais.
Fui sedada e passei por todos os exames possíveis e imagináveis. Toda a equipe médica do hospital veio me ver (até duas graciosas estagiárias que ficavam me afagando o tempo todo). O resultado desses exames não tardou: eu havia perdido mais de 2/3 dos meus rins. Era gravíssimo e as chances? Nenhuma!
Mamãe sentou no canto e chorou como nunca havia feito, quando o médico disse que isso aconteceu porque eu não havia recebido o atendimento correto. Eles haviam lutado comigo dia após dia, noite após noite, fazendo tudo o que a médica mandava e aí descobriram que ela não havia feito nada. Os exames mais simples detectariam algo de muito anormal!
Foi outra luta pois fiquei internada. No dia seguinte, piorei. Mamãe me encontrou sedada, entubada e presa pois havia tido uma convulsão. Dr. Paulo estava desalentado e não satisfeito com o que via. Todos os médicos concordavam que eu estava com uma grave insuficiência renal e que em poucos dias, morreria. Meus pais voltaram para a casa e nesse dia mamãe encontrou-se frente a frente com a sua mãe maior: a natureza.
Foi lá para o seu cantinho e acendeu um incenso muito perfumado. Chamou a Tata, a Tuca e o Teco e implorou ajuda. Era preciso que os anjos da guarda caninos agissem. Era preciso acontecer um milagre: o milagre dos vira-latas. Ela e papai não tinham mais onde recorrer. O valor que estava aquela conta....
Foi uma noite terrível e mamãe conseguiu ressonar mas foi acordada por barulhos na sala. Levantou-se e teve a nítida impressão de ter visto um enorme, muito grande cão. Mas eu mesmo não acredito muito nisso pois mamãe sem óculos, chama elefante de camelo!
Logo cedo Dr. Paulo ligou. Papai atendeu e ficou sabendo de fatos novos; uma linda cadelinha (muito rica) estava com problemas com sua gravidez e uma especialista em leituras de ultrassonografia havia sido chamada. Interessou-se pelo meu caso e fez um exame.
Gente, eu estava com leptospirose, contrariando todos os sintomas e resultados dos demais exames. Era um tipo esquisito, difícil de acontecer mas eu estava com ela. Imediatamente papai foi ao hospital e lá me encontrou acordada, comendo uma linda e deliciosa latinha de ração KD (sem proteínas de carne bovina ou suína). O milagre aconteceu. Eu tinha uma pequena chance e me agarrei a ela.
No dia seguinte pude ir para casa. Quando o carro do papai entrou no estacionamento, todos estavam esperando: a equipe médica, os auxiliares, tratadores e até a recepcionista. As estagiárias vibravam. Foi uma guerra, pessoal.
Bom, e a conta? Mamãe estava mais tranqüila pois um cliente pagou antecipado e havia toda a economia da poupança. A surpresa? A dona do hospital mandou dar um generoso desconto (cobrou o mínimo) pois considerou a causa como sendo muito nobre. Além do mais, foi uma oportunidade fantástica para sua equipe e as estagiárias.
Depois da alegria, fui para casa. A Tata me farejou todinha, a Tuca virou-me as costas em sinal de protesto e o Teco? Bem... ele é tão bonitinho... tirou um caderninho e quis anotar a data do meu próximo cio. A minha vida virou um controle total. Tive que tomar durante 7 meses, uma injeção, dia sim e dia não. E é um remédio danado pois é usado para os aidéticos. Tem controle do laboratório e tudo o mais.
A ração? O danado do Brasil não faz ração para doente renal e toca eu comer a tal KD francesa. E água. muita água. Só fiquei livre dessa aguaceira toda quando, comemorando, papai ligou para Dr. Paulo informando minhas 23 urinadas na recepção num único dia! A coitada da Tuca tentou fazer umazinha.... levou uma bronca!
Todos os dias examinam a minha gengiva e meu hálito. Todos os meses tiram sangue e fazem perfil renal. Se a taxa sobe, lá vai a Tila para a dieta mais rigorosa (até o leite me tiram); caso contrário, posso comer até uma cenourinha. Passado quase um ano, estou viva. Quero deixar para vocês um telefone: (011) 843-2142 - Pet Care Hospital Veterinário - Av. Giovanni Gronchi, 3001 - Morumbi. Toda a equipe médica é fantástica mas eu gosto mais do Dr. Alex (o Dr. Paulo está na Europa). Se o seu filho ou filha
precisarem, dia e noite, contem com essa equipe.
E com isso tudo, descobrimos que o Teco não comia... Vejam os senhores... a mamãe colocava a comida para todos mas não ficava observando. No momento em que houve a necessidade de me controlar (não posso nem passar perto da ração deles) descobrimos que a Tuca comia rapidamente a sua parte e expulsava o Teco da sua vasilha. O pobre estava magro de fome.... Tuca, após ser descoberta, alegou legítima defesa do estômago e como lady precisava de mais vitaminas, etc. e tal. Teco engordou. E eu também. Atualmente peso 16 quilos (o correto). Claro que fiquei aqui e vou ficar para sempre. Não se sabe ao certo quantos anos poderei viver mas meus médicos conseguiram a recuperação de 2/3 dos rins. O controle é rígido e ninguém bobeia, mas, por via das dúvidas, mamãe sempre vai ao seu cantinho, segura a minha pata e acende um incenso perfumado para a mamãe natureza.
Espero que tenham gostado da minha história.
Ops! Lembram-se da tal veterinária e sua clínica? Pois é! Faliu.
Mamãe natureza sabe o que faz.
A SAGA DE CHIC-CHIQUINHA
Chica, pelas mãos de Marly Spacachieri
Em homenagem à Dara, da Tia Luciana Filippini
Meu nome é Chica, mas podem me tratar por Chiquinha, a mini-srd mais chiquezinha do pedaço. Desde quando nasci tive um sonho; casar com um pastor alemão. Só que sou do tamanho de um chihuahua.
Fui criticada por toda a família que me adotou quando era filhote mas não desisti. Sempre saí em busca do meu pastor encantado. Numa dessas inúmeras escapadas (e nunca encontrei o ditocujo) ouvi um som muito estranho. Vinha de longe, como uma música bonita, bem ao estilo pop-canino, meio jazz de quatro patas, assim... como um latido sinfônico. Não resisti e segui aquela onda. Onde fui cair? É claro que todos já sabem que foi "naquele" condomínio humano onde mora "aquele" casal estranho, ilhado por um mar de cães.
Chegando no local, o som foi ficando cada vez mais intenso e cheguei no prédio. De cara me apareceu uma mulher estranhíssima que me olhou assustada (" - preciso pentear o pêlo, pensei...") e me colocou uma vasilha com água e outra com ração. Eu não quis. Sabe o que ela fez? Tirou tudo e fechou a porta na minha cara. Pode? E eu fiquei lá... sem saber o que fazer com a situação... olhando cada porta fechada e procurando a tal música. Ela estava lá, atrás de uma das portas... mas qual?
Deitei num tapete para dormir e fui acordada por um som de "pateado". Olhei e vi uma linda cadela de 3 patas. Contei e recontei mas ela tinha 3 patas. E estava extremamente feliz, vindo com um rapaz, descendo a escada até passar pelo meu tapete-cama; olhou nos meus olhos e me deu uma piscadinha.
- Eh! Cadela-sapatão?, pensei
Não me parecia. Imediatamente ouvia-a falar diretamente para o meu cérebro.
- Chica, precisamos conversar.
Eu respondi que sim, tudo bem (ela era muito maior) e fiquei aguardando. Dois dias depois eu fui recolhida pelo rapaz. Entrei e ouvi a frase:
- Ah, benhê, ela é pequenininha... a gente acha um dono logo, logo..
O "benhê" olhou com cara de quem, dessa oração já conhecia o terço todo.
Durante a madrugada, a Tata (a tal cadela de 3 patas) me acordou e levou para debaixo da mesa da biblioteca porque os livros abafavam os nossos ruídos. Lá ela me explicou que sabia do meu sonho de encontrar o pastor encantado e que poderia me ajudar, já que conhecia alguns bem "canetudos". Topei. Ah, mas teria que fazer um pequenino favor.
- SIIIIMMMMM" , disse eu aflita pelo endereço.
Ela ficou séria e me disse que dali a alguns dias ficaria transparente. E eu não entendi onde estava o problema já que existem cães transparentes e cães visíveis. Ela explicou que seus pais humanos eram muito "humanos" nisso e que não entenderiam a sua ausência. Eu não entendi pois eu vejo todos os cães transparentes...
- Mas os humanos não são assim...
Falou-me que eles precisavam de ajuda pois estavam passando por momentos difíceis, desses onde tudo acontece. E ela só poderia ajudar se pudesse seguí-los aonde fôssem; e isso só é possível quando se fica transparente. Ela os ama acima de qualquer coisa.
Tudo explicado, quis saber qual seria a minha parte. "Tudo simples e fácil..." e começamos um curso rápido. Aprendi a sorrir, fazer gracinhas, pedir comida, pedir colo.... e tudo o mais. Os meus "tios" adoraram. Dias depois aconteceu o previsto e a Tata ficou transparente. Gente, foi um desespero sem fim. A tia e o tio ficaram loucos, choravam muito, não queriam nada de nada. E aí a Tata chegou e disse:
- Chica, é a sua vez.
Olhei meio receosa mas ela balançou o papel onde estava escrito o endereço de um pastor belga fantástico. Respirei fundo e fiz direitinho. Subi na cama onde a tia estava deitada e me aninhei no seu colo. Aí, ela me abraçou e chorou mais forte ainda. Senti um apertão no coração quando as lágrimas caíram no meu focinho.
- Ah, Tata, fica visível... ela está desesperada., disse eu.
Mas a Tata falou que não podia pois precisava ajudá-los mais e mais. E eu fiquei ali quietinha, esperando....
Durante a noite toda a Tila, o Teco e a Tuca ficaram em volta da cama, sob a supervisão da Tata. Eu lá, firmona, olhando aquele papelzinho na pata dela, com o cobiçado endereço. E amanheceu o sábado. Devo ter dormido um pouquinho mas ao acordar encontrei a tia falando ao tio:
- Vamos ficar com ela... é pequenina... e agora ... a Tata... e a gente não vai substituir a Tata mas sim adotar outra cadelinha abandonada...
Fiquei com medo de não conseguir escapar quando terminasse a minha tarefa, mas a Tata me garantiu a "porta aberta". Outro dia triste se passou, mas a noite, quando fui colocada na caminha, coberta com um cobertor, senti-me leve e feliz. Olhei para os outros cachorros que me sorriram. Adormeci gostoso e sonhei com dedos carinhosos, afagos, leite morninho, comida gostosa, risos e abraços e até com um banho.
Ao acordar encontrei um pacotinho na minha cama. Farejei e abri correndo. Era um biscoito todo roído nas bordas, formando um coração. Tinha um papel dizendo:
"Para a peludinha mais linda que já vi; promessas de lindos filhotes". Assinado, Teco (o canetudinho).
A Tuca me deu uma lambida e a Tila levantou a minha perninha, puxou-a para brincarmos.
- Que se dane o pastor belga, pensei eu. Eu quero é ser feliz aqui.
Corri para a minha mãe e meu pai. Ganhei beijos molhados de lágrimas de tristeza mas vi um sorrizinho no canto da boca deles, pelo meu olhar marotinho.
- Ah, mas eu vou conseguir fazê-los sorrir novamente", pensei.
E ao olhá-los vi a Tata sorrindo de forma invisível, rasgando o papelzinho do belga galante, piscando um olho.
Pois é! Acabei ficando com todos (inclusive a Tata que não os larga um só momento... deve ver "aquelas coisas" que eles não deixam a gente ver.....) e desisti de procurar o pastor encantado. Contudo, a Tuca me mostrou no computador do papai uma tal de página Vira-Lata onde tem um monte de "canetudos" (incluindo um pastor branco!!!!!) . Aguardem, todos, que Chic Chiquinha, a gostosinha, anotou todos os endereços e está disposta a conversações (sob a supervisão do Teco, é claro).
Um beijo em todos os corações e não se esqueçam: nenhum animal morre; só fica invisível para os humanos.
O MERGULHO DO ASTOR
Rita Redaelli (Nina)
Quem é o Astor e porque ele está em Petrópolis e nao comigo aqui no Rio? é outra história muito longa...mas entre outros problemas, porque ele é um pequeno vira-lata (também foi recolhido da rua, atropelado) muito cheio de energia e bastante brabo, e vivia brigando com o Jo Estrela, e entre a briga dos dois, quem apanhava (levava as mordidas) era minha mae, coitada...
Aliás, o Astor adora (mesmo) viajar, e eu já fiz muitas viagens a trabalho (pelo estado do Rio), levando ele. Era muito engraçado, porque eu ficava em hotéis, e ele comigo no quarto, e, apesar de toda a brabeza, ficava bem quietinho. Ia para os restaurantes, e ele comigo do lado. Ia para reuniões com clientes meus, e ele do lado..... (apesar de pequeno, ele é uma ótima proteção).
Caso engraçado - o Astor odeia de verdade água. Banho então, nem pensar, é um drama, com mordidas (eu mesma tenho algumas) e tudo mais. Em uma das viagens, paramos em um campo, lindo, verdinho, cheiroso.... O Astor, muito estouvado que é (toda vez que eu abro a porta do carro, sai em desabalada carreira) pulou do carro pela janela mesmo, antes de eu ter tempo de abrir a porta, e vendo aquele campo imenso, saiu feito um foguete e, antes que eu tivesse tempo de fazer qualquer coisa, pulou naquele terreno tão lisinho, como um gramado... só que ele nao sabia (nunca tinha visto) o que tinha alí: era uma lagoa, coberta por plantas aquáticas, formando um verdadeiro tapete (nao se via a superfície da água). Foi um mergulho bonito (com classe...) dentro da lagoa - o susto foi tão grande que ele nao sabia se nadava, se tentava pular ou andar sobre as plantas, nem para que lado ia (coitado, nao tinha entendido nada...), aí eu me inclinei sobre a margem, que era um pouco alta, chamei, e ele veio tentando nadar em minha direção, e eu conseguí tirá-lo da água...
- Eu nunca ví um cão tão molhado e indignado!
Bem, depois dessa ele ficou um pouco mais cuidadoso ao correr pelos campos.
TETÊ, A MESTIÇA
Tetê, pelas mãos de Marly Spacachieri
Olá a todos vocês. Sou a Tetê. Não me conhecem???? Não sabem o que estão perdendo. Minha história é alegre e triste; depois fica triste e alegre! Sou diferente em tudo, por isso vamos ao fim: fui adotada por eles. Satisfeitos? Não? Por que? Querem detalhes... sei.... querem saber das minhas intimidades, das minhas pulgas, das origens de tudo... Que coisa!
Não bastaria que soubessem que fui adotada? Não? Bom, depois não reclamem pelas lágrimas ou pelos risos, ambos, às vezes, inoportunos, não entendidos por quem observa os seus semblantes.
Sou uma cadela mestiça. Fui adotada filhotinha por uma moça solitária, tristonha emuito carinhosa. Nós duas povoamos uma ampla casa com as nossas solidões.
Vivíamos assim, uma olhando para a outra; ela me alisando e eu a lambendo
com meus beijos. Passeios pela rua desviando das porcarias dos cães e dos humanos, leite morno nas tardes frias, pipocas proibidas nos sábados à noite. Lágrimas dela e dengos meus. Assim ficamos por longos quatro anos. Éramos juntas, unidas, alheias às dores do mundo, até que ele apareceu.
Era um homem vigoroso, bonito, muito alto e que ria. O seu riso ecoava pela
nossa solidão, esfriando o nosso leite e derrubando a nossa pipoca. Eu,
linda, rolando ao tapete - como sempre - comecei a sujá-lo depois de limpa
e a empelá-lo depois de tosada. Do dormitório para a cozinha; da cozinha
para a copa; da copa para a lavanderia; da lavanderia para o quintal. Frio
e solidão meus e risos lá dentro. Nem mais o leite, muito menos a ração na hora certa. Água tinha sim! Sempre! Olhando na vasilha vi o quão linda era! E desejei filhotes quentes.
Um namorado atento e veloz. Cio e barrigão. Rapidamente expulsa. Gritos. Do
quintal para a rua, dentro de uma caixa com seis pequeninos seres amamentados a todo instante. Medo da noite, do lugar estranho, dos ruídos, dos bichos exóticos que pulavam, ascendiam, zuniam e picavam. Todo o meu pêlo sobre os filhos. Medo! muito medo! A noite é comprida quando se tem medo.
Amanhece e o sol esquenta o medo, derretendo-o. Uma mão conhecida levanta a
caixa, levando-a para um local público. Reconheço a amiga de minha dona.
Tremo inteira. A justiça será feita. Serei devolvida com todos eles. Cada
um que passa se enternece e leva um. Pouco à pouco os seis se foram. Caixa
no lixo. Prato de comida humana. Água. Novamente a água para refletir meu
rosto. Meus olhos de medo voltaram. Não me buscaram e a noite voltou.
Nada mais quero pensar. Sair e buscar um local para deitar as enormes tetas que não têm onde expulsar tanto leite. Dor. Frio. Calor. Medo. Faro. Cheiro. Hamburguer? Ração? Carros rentes ao corpo. Rápido que estou
cansada! Dois pares de olhos arregalados e cheios de dó. Eu! Justo eu! Aquela que sempre foi tão altiva, desperto a dó de dois pares de olhos. E
de mais dois pares de olhos caninos, arregalados. Rapidamente chega a coleira e as pernas sentadas no meio-fio, no jardim. Afagos e espera para o desconhecido. Adormeço febril. Tenho fome sim, mas não quero comer. Sonho confuso enquanto se espera. O quê? Não sei!
Arrancada do colo, colocada no carro velho e semi-branco, cheirando cachorro, me entrego. Não posso mais pensar pois o leite está ardendo como o sangue que jorra de um corte. Noite num quarto estranho mas dentro de casa. Casa pequena? Apartamento. Cheio de cães. Hostis? Não sei. Tenho a proteção da porta e do moço alto que me leva ao médico. Comprimidos, compressas e o leite jorra. Ossos sintéticos, ração premium, caixa para dormir, cobertor... tudo coloco embaixo do meu corpo. Não posso perder mais nada! Não agora!
Latidos fora do quarto. Cães amistosos? Alguns sim... outros não... Posso
sair? Local pequeno mas não tem quintal para me colocarem fora. Minha cama
sempre é dentro, não importa onde for posta. Fotografada. Passeios. Afagos. Me entrego ao moço, agora já papai. Mamãe? Nervosa e preocupada! Me apalpa, me vira, examina... leiga mas de dedos finos e sutis. Farejada pelo macho, olhada pelas fêmeas. Aceita! Olhei para o pote de água e vi o meu rosto feliz. Não tenho mais medo. Nem de noite!
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