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O CASO DO NOME (ou COMO MATAR A FOME)
Marly Spacachieri
Esta história foi inspirada num cachorrinho muito especial chamado Falafel*, pertencente a Mara Kanczuk. Ele sabe porquê!

Juão sempre teve uma preocupação com nomes, mais precisamente com nomes originais, daqueles que podem ser interpretados. Trauma do seu? Talvez! Juão se ressentia - e muito - desse "u" indevido, fruto da má vontade do escrivão em melhor orientar seu pai. O de sua irmã era sim um nome bonito e diferente! Madeusa soava poético até que alguém explicava que havia sido tirado dos carimbos existentes nas caixas das quinquilharias que o chefe do pai recebia do estrangeiro. O pai, todo feliz, dava explicações aos interessados e mostrava sua sagacidade quando do Made in Usa tirou o nome da filha mais nova. Seu irmão do meio, esse sim! - tinha um nome bonito: Raiuvaque, mas conhecido como Rai.
Nesse clima de letras nasceu, cresceu e se afirmou Juão. E nesse mesmo cenário aprendeu que primeiro é preciso saber o nome e depois conhecer a pessoa. Namorou algumas garotas mas não conseguia firmar-se em nenhuma. Os amigos, sabedores da cisma, procuravam por meninas de nomes exóticos; em caso negativo, bolavam um apelido para a moça. Porém, Juão não se aportou!
Quando Felipe, seu amigo mais próximo, deu-lhe um cachorro de presente, batizou-o como Palmito. Palmito? Sim! E ponto final, que o cachorro é dele.... Palmito veio para transformar a vida de Juão, pois através dele conheceu Ricaura e a Alface.
- Quem? Ricaura? Meu Santo Deus...! - gritaram os amigos.
Sim, Ricaura, filha do Sr.Ricarmárcio e Dona Marilaura. Irmã de Marimárcia e do Marciomar. E Juão ficou com medo de ser diferente só por ter um único "u" no nome. E se Ricaura não achasse o nome dele charmoso? Bem que poderia ter um nome como daqueles antigos e que estão registrados no cartório? Lembrou-se do Sr.Colapso Cardíaco da Silva; da Dona Graciosa Rodela, Calendário Gregoriano da Costa ... e outros tantos. Contudo Ricaura mostrou-se avessa aos preconceitos e apaixonou-se pelo Juão. E o Palmito pela Alface, uma cadelinha linda, novinha e fofa.
Casaram-se em seguida. No primeiro ano veio a primeira filha: Jurica, sem acento mesmo! Apelidada de Juju, tornou-se a luz da vida do casal. No segundo ano veio o filho: Ricão. E no terceiro ano, finalmente Alface deu a luz para 4 filhotes, todos a cara do pai e o pêlo da mãe. Exultante com o aumento da família, Juão procurou os amigos para juntos comemorarem.
E cerveja desce... sai prato de batatas fritas... pede uma linguiça no capricho... risos... até que alguém se lembrou de perguntar os nomes dos filhotes. Juão perdeu o sorriso e pousando a cerveja na mesa olhou para todos - lágrimas nos olhos. Todos aflitos pensando em desgraças.... Juão respirando fundo, fungando mesmo. Puxa vida! Coisa brava vem aí... tragédia... serão defeituosos? Serão feios? Ora! E tem cachorro feio? Imagine! Morreu algum? Não! Ué? Pediu-se um gim que Juão jogou goela abaixo. Parado, fitando o nada, olhos envesgando para a ponta do nariz e a turma nervosa. Música do rádio abaixada! Copos sendo apertados... De repente um grita:
- Desembucha, desgraçado!
Juão tenta falar entre soluços. Acalma-se
- Palmito é como se fosse meu filho. Alface é a melhor cadela que ele poderia querer. E a cria foi linda mas nasceram só 4 machos e nenhuma fêmea.
Um grito de "mas que bobagem..." saiu da boca de Felipe.
E uma confusão se formou. Todos queriam ver a tragédia que Juão falara mas cadê a danada? Juão, nervoso com os amigos, levantou-se jogou o dinheiro sobre a mesa ao mesmo tempo que berrou:
- Ignorantes! Eu não posso ficar num bando de ignorantes! - Saiu em seguida, deixando todos espantadíssimos.
Felipe seguiu e foi encontrá-lo sentado na praça.
- Mas o que está havendo? Que diabos deu em você - perguntou Felipe.
- Você não entendeu? - disse Juão.
- Claro que não - disse Felipe - há algo pra ser entendido?
- Pôxa! É tudo tão simples, tão claro! Veja você: Palmito e Alface tiveram 4 filhotes que batizamos de Vinagre, Sal, Óleo e Orégano.
- E daí? - pergunta Felipe.
- E daí? Não nasceu a Cebola! Você já viu Palmito, Alface, Vinagre, Sal, Óleo e Orégano sem Cebola? Viu? Não! E nem vai ter! O veterinário fez a tal esterilização na Alface. Nunca mais vamos poder ter a Cebola! Nunca mais!

* FALAFEL (pronuncia-se Faláfel) é o nome de um sanduíche árabe feito no pão sírio com humos, tehina, berinjela, tomate, pepino, repolho, batata frita, bolinhos de grão-de-bico com ervas e CEBOLA! Sem a cebola não é Falafel, certo?



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VOCÊ ME ENSINOU
Greg Hibler, Leviathans Lair Mastiffs

Eu lembro da primeira vez que eu te vi, saindo do avião, coberta de baba, se escondendo atrás da tua caixa. Você estava com medo do mundo, o mundo era muito grande e frio. Eu te estendi minha mão e você a beijou. Eu te pedi para vir comigo e ver o mundo. E só porque eu te pedi, você veio. Eu me lembro daquele dia. Você me ensinou a acreditar.

Eu lembro de você como um filhote, rodeada por brinquedos, colocados lá somente para você. Eu ria enquanto você balançava tua cabeça e latia para mim, me convidando a brincar. Você pegaria minha meia ou meu sapato e fugiria, só para mim te perseguir até você me devolver. Eu me lembro daquele dia. Você me ensinou a brincar.

Eu lembro de você como uma cadela adulta, grande e forte. Eu via você saudar cada convidado com teu rabo abanando, e olhos atenciosos. Eu sorria e me sentia seguro. Eu sabia que você sempre ficaria ao meu lado. Eu me lembro daquele dia. Você me ensinou a ter coragem.

Eu lembro de você como uma nova mamãe rodeada por filhotes. Eu sentei ao teu lado e te mostrei cada um, como se você os inspecionaria aprovando-os. Você os limparia e tomaria conta deles. Mesmo quando você estava cansada e desgastada. Eu me lembro daquele dia. Você me ensinou a ser forte.

Eu me lembro de você como uma mãe, rodeada por filhotes crescendo. Eu ria enquanto você fazia caretas de dor, quando um de teus filhotes te mordia e tentava fazer-te brincar. Eu vi você a segurá-los e limpá-los, enquanto eles tentavam se livrar. Eu lembro daquele dia. Você me ensinou a ter paciência.

Eu lembro de você hoje, cansada e desgastada. Eu gostaria de te pegar, te abraçar e chorar. Você me olhava com aqueles olhos marrom-claros. E quando a tua alma falou com a minha, você deixou este mundo grande e frio. Então, eu murmurei "Adeus". E mesmo neste momento que passou, quando meus olhos queimavam em lágrimas, você me ensinou uma última lição. Eu sempre lembrarei daquele dia. Você me ensinou a amar.



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O PAPELÃO DO KENNEL
http://www.almapbbdo.com.br/html/geral/frlollo.shtml

Aconteceu num lugar onde todos disputam prêmios como cães. Foi num kennel club.
Os jurados estavam dando notas para os melhores cachorros, e chegou a vez de julgar a cadela da velhinha (a cachorra dela). Perceberam algo estranho.
— Minha senhora, temos que desclassificar seu cão.
— Por quê? Ele não está dentro dos critérios para sua raça?
— Está, é que... bem...
— Sua pelagem não está de acordo com os manuais?
— Está perfeita. É que...
— A postura! Olha a postura. Existe melhor?
— Não é isso...
— Já viu cernelha mais perfeita?
— Tá tudo certinho, só tem uma coisa...
— Qual é a razão para ele não ser premiado?
— Senhora, este cachorro está morto e empalhado!
— E onde está escrito no regulamento que tem de estar vivo?
Os jurados se entreolharam. Realmente não havia nada no regulamento que impedisse a premiação. O regulamento só tinha exigências de raça, mas não falava nada de que o animal estivesse vivo.
Um jurado tentou apelar para o bom senso:
— Minha senhora, este cão não pode cumprir as funções de sua raça.
— E aquele sheep dog? — dispara a velhinha — Será que já viu uma ovelha a vida? O perdigueiro ali, como pode cumprir sua função de caçar perdizes morando na cidade?
— É, talvez a senhora tenha razão...
— O pastor alemão já leu Lutero? O dog alemão sabe quem é Klaus Maria Brandauer? O poodle francês usa Chanel? O afegan sabe onde fica o Afeganistão?
— Bem, isso não está no regulamento.
— Se não é necessário cumprir esses quesitos, minha Fifi pode concorrer de igual para igual, afinal teve pedigree e tudo.
Não teve outro jeito senão dar o prêmio para a cachorra (a velhinha).
No ano seguinte concorreram ao prêmio vários cães empalhados. Muitos foram premiados. Até alguns gatos. Os donos de cães vivos protestaram e a diretoria do kennel club resolveu mudar seus critérios.
Hoje está cada vez mais difícil concorrer no kennel club. Os novos critérios são tão rigorosos que se algum cachorro for bonito demais é logo desclassificado. Exigem-se atestados de veterinários, e só se aceitam veterinários com atestado de um médico. Os julgamentos demoram meses e no final ninguém fica muito satisfeito.
Com tantos regulamentos para impedir as fraudes, com tanta gente se acusando, as pessoas começam a duvidar dos criadores de cães. Os negócios nos canis estão em baixa. Mas todos o cães que participam dos prêmios estão vivos. São mais feios, mas vivos.
E a velhinha? Ela estudou biologia, leu muito e dizem que está pronta para participar do próximo concurso. Fora isso, as únicas notícias que se tem dela é que os vizinhos reclamaram do barulho, do cheiro de formol que sai do seu porão e de uma gigantesca torre que interfere nas antenas de TV. Dizem que certa noite de tempestade alguém ouviu ela gritar:
— ELE VIVE! ELE VIVE!

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HISTÓRIA DE VERDADE
Marly Spacachieri
Histótia de verdade, foto do cão
Hoje eu quero contar uma história verdadeira, sem maquilagem literária. As pessoas da lista me conhecem por escrever historinhas sobre cachorros, colocar aqui e ali uma pitada de emoção. Mas hoje é diferente! Aconteceu do jeitinho que escrevo; não tem nada de literário não!
Vocês viram a foto desse lindo cachorro? É macho e tem +/- 8 anos. Teve dono até ficar quase cego e aí deixou de ser cachorro para se tornar um pedaço de coisa que não mais tem valor. Deve (e foi sim!!!!) isso o que o dono pensou ao jogá-lo fora, nas ruas. Ficou perambulando, sem enxergar quase nada até ser quase atropelado. Uma senhora o recolheu e levou-o para o hospital onde o Dr. Alex trabalha. Dr. Marcelo o acolheu, examinou e encontrou machucados diversos, desnutrição, pulgas e um pavor de tudo e todos. O que fazer? Sacrificar? Deu pânico geral em todos mas quem iria ficar com ele? Uma senhora que aguardava seu cão sair da tosa pagou um banho para ele. Os veterinários pagaram as vacinas, vermífugos e outros medicamentos. E a senhora que o trouxe disse que poderia pagar uma semana de hospedagem para ele no hotel, lá mesmo.
Tiramos essa foto dele num sábado, quase esgotado o prazo da hospedagem (cara demais!!!). Tínhamos perdido as esperanças de que alguém o adotasse. Ele é um cão sadio, perfeito mas quase cego. E daí que as pessoas as vezes pensam que se pode confundir cachorro e gato com coisa que desatualiza, estraga e que pode ser trocado por versão mais nova! Ele precisava era de um lugar tranquilo, sem outros animais que o atemorizasse ou mesmo simplesmente o assustasse. Teria que ser o único? Possivelmente!
Ninguém o queria e confesso que pensei em trazê-lo para meu apartamento e transformar tudo em 6 focinhos SRD. Deu uma dor no peito em pensar que ele acabaria sendo sacrificado por culpa de um tutor imbecil e irresponsável. Esse cachorro tinha tanto medo de gente que só de sentir o toque de mão estranha, urinava-se todo. Começamos a pensar em saidas mirabolantes; cada veterinário tentava achar um meio de preservá-lo. Pensou-se em vaquinhas, rifas, etc e tal.
A história dele foi passando de boca em boca, de ouvido em ouvido até chegar numa senhora que aguardava seu cão sair da tosa. Não acreditou que alguém chegasse a esse ponto, de jogar fora um cachorro quase cego. Saiu de seu carro (um carrão, uau!!!!!) e pediu para vê-lo. Acariciou seu pêlo. Tinha as mãos de gente velha, generosa e sábia. Daí o adotou. Levou-o (naquele carrão, uauuuuuu) para sua fazenda onde ele agora reina senhor absoluto. Foi uma emoção sem limites. Lágrimas para todos os lados e brindes com coca-cola! Todo mundo comemorou, desde o corpo médico até o porteiro (gente finíssima, por sinal!!). Tenho certeza que onde se pode ver, as estrelas brilharam mais fortes naquela noite. Pensei se esse cachorro, branquinho e dócil, não seria um anjo enviado para testar os corações dos humanos! Quem sabe um anjo-canino! Alguém já ouviu falar?
Vocês sabem que todo mundo se uniu em torno da causa e, de tal forma, que todas aquelas birrinhas do dia-a-dia sumiram? As pessoas tiveram que olhar para dentro de si a procura de uma resposta; bem parecido com uma "espécie de cegueira para o comum, o dispensável, o inútil", certo? Tudo porque o lindão da foto não enxerga bem! Não parece meio premeditado? Meio colocado no caminho? Sei não, mas anjo peludo... nunca ouvi falar!!!! Será??????
Não tenho os nomes de quem o recolheu e de quem o adotou; sequer os das pessoas que financiaram. Só pude tirar uma foto mas acho que precisa ser visto por todos sim.
Nossa contribuição vai se resumir a poder contar isso, para que não se perca a fé nas pessoas; pelo menos não em todas elas. Quantos tutores agem assim? Quantos mais acreditam que cachorro é gente como se pudesse acontecer de um cão jogar seu dono fora porque ele "desatualizou"! Cada dia que passa acho que só temos uma saída: educar mais e mais os donos de animais. Pensem com carinho nisso...

Nota da Vira-lata: Dr. Alex é o veterinário dos cães da Marly (todos sem raça definida, retirados das ruas) e atende no Pet Care Hospital Veterinário, cujo endereço você encontra na página de Dicas de Serviços. Verifique no índice de histórias para saber mais sobre "os 5 focinhos".



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O COELHO E O CACHORRO
Autor desconhecido

Eram dois vizinhos. O primeiro vizinho comprou um coelhinho para os filhos. Os filhos do outro vizinho pediram um bicho para o pai.
O homem comprou um cão. Papo de vizinho:
- Mas ele vai comer o meu coelho.
- De jeito nenhum. Imagina. O meu cachorro é filhote. Vão crescer juntos, pegar amizade. Entendo de bicho. Problema nenhum.
E parece que o dono do cachorro tinha razão. Juntos cresceram e amigos ficaram. Era normal ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa.
As crianças, felizes. Eis que o dono do coelho foi passar o final de semana na praia com a família e o coelho ficou sozinho. Isso na sexta-feira. No domingo, de tardinha, o dono do cachorro e a família tomavam um lanche, quando entra o cachorro na cozinha. Pasmo. Trazia o coelho entre os dentes, todo imundo, arrebentado, sujo de terra e, é claro, morto. Quase mataram o cachorro.
- O vizinho estava certo. E agora!?
- E agora eu é que quero ver!
A primeira providência foi bater no cachorro, escorraçar o animal, para ver se ele aprendia um mínimo de civilidade e boa vizinhança. Claro, só podia dar nisso.
Mais algumas horas e os vizinhos iam chegar. E agora? Todos se olhavam. O cachorro rosnando lá fora, lambendo as pancadas.
- Já pensaram como vão ficar as crianças?
- Cala a boca!
Não se sabe exatamente de quem foi a idéia, mas era infalível.
- Vamos dar um banho no coelho, deixar ele bem limpinho, depois a gente seca com o secador da sua mãe e o colocamos na casinha dele no quintal.
Como o coelho não estava muito estraçalhado, assim fizeram. Até perfume colocaram no falecido. Ficou lindo, parecia vivo, diziam as crianças. E lá foi colocado, com as perninhas cruzadas, como convém a um coelho cardíaco. Umas três horas depois eles ouvem a vizinhança chegar. Notam o alarido e os gritos das crianças. Descobriram! Não deram cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta.
Branco, lívido, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.
- O que foi? Que cara é essa?
- O coelho... O coelho...
- O que que tem o coelho?
- Morreu!
Todos:
- Morreu? Ainda hoje à tarde parecia tão bem...
- Morreu na sexta-feira!
- Na sexta?
- Foi. Antes de a gente viajar. As crianças enterraram ele no fundo do quintal!

Moral da História :

Imagine o pobre do cachorro que, desde sexta-feira, procurava em vão pelo amigo de infância, o coelho. Depois de muito farejar descobre o corpo. Morto. Enterrado. O que faz ele? Provavelmente com o coração partido, desenterra o pobrezinho e vai mostrar para os seus donos. Provavelmente estivesse até chorando, quando começou a levar pancada de tudo quanto é lado.
O cachorro é o herói. O bandido é o dono do cachorro. O ser humano. Sim, nós mesmos, que não pensamos duas vezes. Para nós o cachorro é o irracional, o assassino confesso. E o homem continua achando que um banho, um secador de cabelos e um perfume disfarçam a hipocrisia, o animal desconfiado que tem dentro de nós.
Julgamos os outros pela aparência, mesmo que tenhamos que deixar esta aparência como melhor nos convier. Maquiada.

Coitado do cachorro. Coitado do dono do cachorro.
Coitados de nós, animais racionais.

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HOMENAGEM À DONA ISAURA ROCHA
Isabela Rocha da Silva
Isaura Rocha e Caron Essa é apenas uma pequena, embora longa, homenagem à Isaura Rocha, minha mãe, que me ensinou o espírito Vira-Lata, mesmo sem conhecê-los. E peço que, quando dirigirem suas preces a Deus e a São Francisco, lembrem-se dela, que certamente, junto com nossos peludos invisíveis, está olhando por todos nós.

Era uma vez, mamãe, que chamava-se Isaura. Desde menina, com a cumplicidade do vovô e as broncas da vovó, ela gostava de animais. Teve vários cães (falava sempre do Joly), gatos e até uma coelha, a Zenóbia (pode?) Morava no interior, em Angra dos Reis.
Cresceu, foi morar no RJ, em Copacabana. Ficou lindíssima e namoradeira. Mas continuou paquerando também os cães...
Então conheceu meu pai (que também já gosta de um focinho). Namoraram, passeavam muito, e sempre que encontravam com alguém com uma coleira e um cachorro era a mesma coisa... "Aí que lindo! Que gracinha! Qual é a raça? Posso pegar no colo? Um dia ainda vou ter um!!!!"
Depois de um tempo, que peninha... brigaram feio, cada para o seu lado!!
Mamãe não era fácil, roía um osso mas não perdia a pose! ("Sou feita de cera, só quero quem me queira!"). Não perdeu tempo, logo começou a namorar outro... rolou uma história de comprar um bichinho, não tenho certeza, mas acho que era um gato. Ou seria um cachorro? O fato é que o coitadinho do namorado (que eu conheci anos mais tarde e era muito gente boa!), teve que viajar a trabalho. Era oficial da aeronáutica, e deixou o campo aberto para a marinha (papai é fuzileiro).
Não sei como papai descobriu que barra estava limpa, também não sei se algum informante deu o serviço sobre o bichinho, o fato é que: De repente. Não mais que de repente, tocou a campainha. Mamãe atende e... quem estava lá?
Papai!
Sozinho?
Não! Ele e o Caron (Cocker Spaniel Inglês - Ruão) numa cestinha de vime!! Foi covardia, marmelada!! Preciso dizer que entraram os dois?
O outro cara foi detonado BUM!
O tempo passou, os dois se casaram e papai teve que fazer um curso "nos states". As avós moravam em casas, mas não quiseram o neto.
Resultado, ele foi também. No dia do embarque, depois de despachar todas as malas e trocar todo o dinheiro apresentaram um papelzinho para ela assinar. O avião nã era adequado para o transporte de animais e ela deveria isentar a companhia de responsabilidade. TÁ MALUCO? Foram as malas e ela e o Caron ficaram (ela só com a roupa do corpo e dólares na mão).
Só viajaram no dia seguinte depois que ela teve certeza que o filhinho estaria bem. Chegando ao aeroporto Kenedy, qual a primeira coisa que ele fez? Batizou o aeroporto, claro. Se fosse aqui iam dar o maior chilique, lá acharam lindo.
Passaram os anos, eles voltaram ao Brasil e foram morar em Uruguaina, RS. Depois de já ter desistido, finalmente mamãe engravidou do meu irmão.
Ficou preocupada com possíveis ciúmes do Caron que sempre fora filho único, o rei da casa. Principalmente depois que comprou o berço. Imagine a cena: ela chega em casa toda feliz, o ordenança coloca o berço no quarto, ela arruma e vai cuidar da vida. Dali a pouco vem o rapaz e chama...
- Madame, a senhora pode vir aqui ver uma coisinha?
O que era? O Caron no berço, porque aquela caminha, bonitinha, cheirosa e tão arrumadinha só podia ter um dono. Ele!
Quando o Cesar nasceu os dois foram devidamente apresentados e ele se tornou o guardião do menino, pelo menos até a chegada de outro personagem.
Nesse meio tempo, Caron também havia encontrado sua cara metade. Uma Cocker Americana, de um pessoal que era dono de estância ali por perto.
Sei que não se deve fazer essas misturas, mas naquele tempo mamãe era amadora.
O "casamento" foi realizado, ela era preta, mas sempre tinha um filhote dourado. Foi esse que o Cesar recebeu de presente. Ela contava que os dois ficavam juntos no "chiqueirinho" e nunca houve ninguém mordido e nem orelhas ou rabos puxados.
Tempos depois um menino apareceu por lá com um cão igualzinho ao Caron amarrado numa corda. Achou na rua e pensou era o da mulher do comandante (que ficava sempre sentado no muro observando a paisagem).
Pergunta daqui, pergunta dali, descobriram que era filho dele. Foi dado para o dono de outra estância e um dia mordeu e machucou uma ovelha. Por lá isso deve ser crime odioso, porque o coitado levou uma surra e foi largado na estrada. Este era o Beer, que foi o terceiro focinho de temporada.
Passaram os anos, todos vieram para o RJ e foram morar em Jacarépaguá. Era o final dos anos 60, muito tumulto, quartéis agitados... Mamãe se sentia muito sozinha, eu nasci, o casamento desandou.
Como ficar sozinha naquele fim de mundo com 3 cães, um filho pequeno e uma recém nascida? Meu tio Paulo, que foi meu pai de verdade, resolveu ajudar e nos levar para a casa dele. Só nós, os cães não, porque ele morava num apartamento pequeno.
Meu outro tio e meus avós moravam em casa, mas também não quiseram ficar com eles. Meu avô ainda tentou ficar pelo menos com o Caron, mas vovó não deixou.
Mamãe teve que dá-los... deve ter sido um dos maiores sofrimentos de sua vida!!! (Ela sempre chorava quando falava nisso)
Um amigo arrumou donos para todos.
Meu tio era uma pessoa muito boa (apesar desse deslize) e um ano depois comprou um apartamento só para nós.
Mamãe convocou o amigo para irem atrás dos 3. Só reencontrou o Caron. Os outros haviam sido dados para outras pessoas, porque brincando derrubaram não sei quem, porque eram levados ou qualquer idiotice parecida.
O Caron ficava num jardim, preso numa corrente e num arame. Estava cheio de pulgas, com uma ferida na cabeça, gordo e com problemas nos rins porque comia restos de comida. As pessoas não se importaram em devolvê-lo.
Ele ainda viveu um ano conosco. Morreu em conseqüência dos problemas renais, na mesa de operação.
Durante muito tempo ela levantava durante a noite porque pensava ter ouvido o barulho das patinhas dele. Coisas de mãe...
Depois veio outro cocker, vieram os lhasa apso, os yorkies...
Dessa minha temporada ela só conheceu mesmo os yorkies o Cristopher (o queridinho da vovó) e o Charles. Mas tenho certeza que agora, ela todos os seus amigos, principalmente o Caron, estão no céu dos humanos e dos cães, cuidando de todos nós.
A dona Isaura, Isaurinha para os íntimos, deixou para seus dois filhos mais do que a maioria das mães, porque além do amor, das broncas, da formação e do exemplo, deixou o amor pelos animais, o respeito e o carinho por todos os bichos, mas especialmente pelos cães.

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